terça-feira, 5 de abril de 2011

Como poderemos, preservando a ecologia, tirar partido económico do Mar da Lusitânia?

Olá novamente,

Realizei uma busca breve sobre este tópico para descobrir que em Portugal se reflecte pouco, ou nada, sobre este assunto vital. De qualquer forma ainda há alguns resistentes, sobretudo académicos, que ousam estudar e reflectir a importância do Mar e das suas Ciências para Portugal.

Neste capitulo encontrei um excelente resumo de 2003 de J. Alveirinho Dias que faz o enquadramento da importância da sua área cientifica, a Oceanografia, para o desenvolvimento do país. Das reflexões que apresenta ressalto uma com que me identifico sem reservas “... É imprescindível que os diferentes sectores da sociedade adquiram consciência de que o Homem é profundamente dependente, praticamente a todos os níveis, do oceano. ...”

Plataforma Deepwater Horizon explode a 20 Abril 2010 (Fonte: Channel4) 

De facto, o Oceano é um sistema de enorme complexidade que gera no seu seio equilíbrios frágeis mas no entanto decisivos para assegurar a vida como hoje a conhecemos. Nesse capitulo importa recordar as recomendações do relatório “O Oceano....Nosso Futuro” (CMIO1998) que no seu capitulo 4º refere “...a utilização económica e ecologicamente sustentável dos recursos oceânicos implica muito mais do que a melhoria da gestão em sectores individuais, como o das pescas, do transporte marítimo e da extracção off-shore de petróleo, gás e outros minerais. Diz igualmente respeito ao reconhecimento da forma como as actividades realizadas em terra afectam o oceano. O enorme crescimento da actividade económica e o estabelecimento de cada vez mais pessoas nas zonas costeiras estão a ameaçar o valor ecológico dos oceanos .... ”.

Também nesse relatório se relembra que “ ...As palavras "economia" e "ecologia" têm origem na palavra grega oikos, que significa "lar comum" (...). Tem como principal objectivo salientar as interfaces entre economia e ecologia e explora o valor dos serviços mercantilizados e dos serviços esquecidos, não mercantilizados, prestados pelos oceanos , com vista a aumentar a consciência sobre o seu verdadeiro contributo para o bem-estar individual e colectivo...”

No entanto, é hoje bem visível, que o homem ainda não conseguiu harmonizar ambas as palavras nas actividades que desenvolve no Oceano e na sua orla costeira. É um facto indesmentivel que hoje as actividades da Economia penalizam a Ecologia dos Oceanos, mas também é evidente que por influencia dos Media e da sua globalização hoje essa harmonização está mais do que nunca a ser exigida pelos cidadãos e devido a essa pressão pelos estados. Após os acidentes do Exxon Valdez no Alasca e agora da BP Deep Water Horizon no Golfo do Mexico fica claro para a Economia que tem de se alinhar com a Ecologia sobre pena de sucumbir as pesadíssimas (20 biliões de US$) consequências económicas dos desastres ambientais.
Barcaça/pontão gigante rebocado para armazenar águas contaminadas da Central Nuclear de Fukushima Daiichi (Fonte: CBC)

No entanto, esta acção correctiva é ainda só restrita às actividades cujas  consequências são facilmente visíveis e/ou mediatizáveis (Energia: Petróleo (extracção nos fundos e transporte) e agora a Fissão Nuclear (fonte de arrefecimento do ciclo térmico)) e tendem a diluir-se nas restantes actividades marítimas (Transporte Marítimo, Pescas, Aquacultura, Extracção de Inertes e de Minerais,...) e costeiras/fluviais (Construção, Resíduos Sólidos, Águas residuais domesticas e industriais, Turismo, Agricultura intensiva, ....).

E no Mar da Lusitânia como estamos? Será que o equilíbrio existe nas actividades que actualmente ai decorrem? Qual são hoje as principais ameaças a que o nosso mar está sujeito? E quais são as nossas reais capacidades de desenvolver novas actividades económicas ecológicas nesse espaço?

Essas são mais algumas das questões que considero fundamental debater e procurar dar resposta assertiva neste exercício prospectivo ao Mar Lusitano.

Alexandre Guedes da Silva
Engenheiro Naval

domingo, 3 de abril de 2011

O que é realmente o Mar da Lusitânia?

Olá a todos(as),
Antes de iniciar a reflexão importa definir a fronteira que delimita o nosso objecto de estudo e quantificar as suas características principais. Assim importa realçar o papel que os tratados internacionais desempenham neste capitulo. Assim as actuais fronteiras internacionalmente reconhecidas do Mar da Lusitânia estão consagradas na  Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar e encontram-se actualmente em apreciação um pedido nacional junto da ONU para a sua reformulação e alargamento (cerca de 75% de aumento em área).
Selvagem Pequena (Foto José Lemos)

As suas principais características são a extensão em área da sua superfície livre:

  • Portugal Continental 327 667 km**2
  • Açores 953 633 km**2
  • Madeira 446 108 km**2
  • Portugal Total: 1 727 408 km**2
E em volume de água salgada (considerando que a Profundidade Média do Atlântico é de 3 926 m):
  • Portugal Continental 1 286 420 km**3
  • Açores 3 743 963 km**3
  • Madeira 1 751 420 km**3
  • Portugal Total: 6 781 804 km**3
ZEE Portuguesa actual e proposta de futuro alargamento.
Como termo de comparação podemos utilizar os dados da Barragem do Alqueva (o nosso maior reservatório de água doce)
  • Área da superfície livre da albufeira de Alqueva (fonte EDIA): 250 km**2
  • Volume máximo de agua doce de Alqueva: 4,15 Km**3
Ou seja, o Alqueva representa apenas 0,015% em área e 0,00006 % em volume da nossa ZEE. Dito de outra forma, o volume de água disponível na ZEE para a exploração económica de um único Português (e somos mais de 10 milhões de residentes) daria para a empresa das Águas do Luso produzir ininterruptamente durante mais de 5 750 anos os seus actuais 110 mil garrafões diários.
Através destas simples comparações fica bem visível a gigantesca dimensão do Mar que temos para explorar e do pouco, ou nada, que fazemos na actualidade. Se a exploração da fronteira entre o meio liquido e o gasoso foi no passado uma tarefa que assumimos e concretizamos com  inegável sucesso, hoje os nossos desafios serão os de explorar a fronteira entre o meio liquido e o meio sólido (o fundo do mar) e de melhor conhecer as potencialidades ("riquezas materiais") do seu meio liquido. 
Extracto da Carta Marítima das Ilhas Selvagens (Fonte: I. Hidrográfico)

O que é que já conhecemos do nosso meio liquido? E dos nossos fundos do mar? Quantas planícies e montanhas submarinas temos? Que seres vivos habitam essas paragens? Que riquezas minerais se escondem nas suas profundezas?
Essas serão mais algumas das questões que proporei a debate nesta “expedição ideográfica” ao Mar da Lusitânia.
Alexandre Guedes da Silva
Engenheiro Naval

sábado, 2 de abril de 2011

Será o Mar o nosso Futuro ??!

Um dos nossos defeitos colectivos é a falta de memória histórica, sobretudo quando confrontados com o nosso "fado" quotidiano de falta de recursos para assegurar o nosso futuro. Numa altura de profunda crise nacional em que a "alma lusitana" se configura como a nossa ultima saída é bom reflectir sobre o nosso passado e ai procurar pistas para construir "a nossa solução do futuro".

Do nosso passado ressalta a memória de grandes feitos e de grande fortuna que tiveram no mar, sobretudo na exploração da sua superfície livre, o exemplo da nossa supremacia internacional. Se a todos foram cantados os grandes feitos de coragem e valentia dos seus navegadores pelos Lusíadas, a poucos ou mesmo a ninguém, é contada a verdadeira razão por detrás deste sucesso.

Na verdade hoje ninguém sabe exactamente como era a nossa ferramenta de exploração do mar, a Caravela Lusitana. Pode parecer-vos inédita esta revelação mas se procurarem com cuidado verificarão que da Caravela só se conhecem representações figuradas que nos dão uma pálida ideia da forma deste notável veiculo de exploração naval. Da tecnologia utilizada na sua construção pouco se sabe e sobretudo nada nos chegou aos dias de hoje (por ex: não se conhece a existência de vestígios arqueológicos de qualquer Caravela).

Esquema de distribuição de carga a bordo.


Sabe-se que a embarcação foi sendo concebida e afinada por mestres arquitectos navais ao longo de centenas de anos, sabe-se que foram inúmeros os acidentes de percurso durante a sua concepção e utilização e sabe-se que a Caravela era um dos segredos mais bem guardados do Reino. E sabe-se sobretudo que o seu sucesso se deveu às suas capacidades náuticas (estabilidade, bolina, manobra e velocidade) que faziam dela uma embarcação polivalente, tenaz e segura na exploração da superfície livre do mar mas que impunha uma vida muito dura aos seus tripulantes.

Há da caravela mais de uma dúzia de variações reportadas na história que não são mais do que adaptações do veiculo às condições que o mar oceano e que as tarefas da exploração marítima foram obrigando os mestres arquitectos navais a desenvolver. Uma das adaptações mais bem conseguidas foi a da instalação a bordo de "bocas de fogo" que nos tornaram à nós Portugueses nos adversários mais temidos da época (não porque os outros não nos tivessem copiado) mas porque durante vários séculos nos soubemos manter na liderança tecnológica do seu desenvolvimento e utilização.

Painel de Azulejos que retrata a Armada de Pedro Álvares Cabral

E o que é que o episódio histórico da Caravela nos ensina? Qual é na realidade o seu valor prático para o estado nação Portugal? Como é que ele nos poderá guiar neste inicio do Terceiro Milénio?

Estas são só algumas das questões que irei procurar debater convosco ao longo desta estimulante jornada que agora se inicia com a Pergunta de Partida:

Será o Mar o nosso Futuro??!


Alexandre Guedes da Silva
Engenheiro Naval